Histórias do Sertão

 
 

HISTÓRIAS DO SERTÃO

O coronel que foi açoitado

Por Adauto Guerra:

Como tantos outros coronéis e fazendeiros, Felinto Elysio de Oliveira Azevedo, bisneto do fundador de Jardim do Seridó, Antônio de Azevedo Maia, foi mais uma vítima do terrorismo espalhado no Rio Grande do Norte pelo interventor Mário Câmara.

No dia 16 de janeiro de 1935, precisamente ao meio dia, chegava a Força Pública do Governo à fazenda Sombrio. Mesmo sabendo que receberia a desagradável visita, o coronel continuava escrevendo, sentado em sua escrivaninha, na sala da frente. A informação havia sido dada por um trabalhador, conhecido por Zé Neco, que morava na mesma propriedade. Ao passar pela casa do coronel, dirigiu-se a uma cozinheira da fazenda de nome Amália, com esta notícia: “Ei, cuidado que os cangaceiros andam aí, logo chegam aqui”. “Onde estão?”, perguntou ela.  “Lá nos Correias”, respondeu ele.

A tropa era a mesma de outros lugares. Tenente Oscar Mateus Rangel, chefe do bando; sargento Milton Campos; cabo Manoel Feitosa e mais doze soldados. Antes, eles passaram na casa de um fazendeiro de nome José França e compraram do filho dele, que tinha o mesmo nome, uma virola feita de cipó de mofumbo. E, com esta virola e mais um facão, flagelariam mais tarde o coronel Felinto. Ana Teixeira, outra empregada da fazenda, avistou a viatura encostar-se à cancela, que foi aberta por um soldado.

Em seguida, eles tomam direção ao vapor e lá estacionam a viatura. Dirigiam-se ao alpendre e o coronel levantou-se para recebê-los. Abriu a porta, mandou que entrassem e ofereceu cadeiras. Porém, isso ao bando não interessava. Um deles, de cor negra, conhecido por “Barra de Aço”, falou: “Quero armas”. O coronal respondeu: “Não tenho”. Então, em seguida ele puxou na manga da camisa e em seguida deu-lhe um empurrão, jogando o coronel ao chão, sem este controlar nem mesmo a bengala que conduzia. Esta lhe soltou na queda.

O coronel pediu: “Não façam isso”.  Ao levantar-se, o coronel foi levado aos empurrões para o vapor. A inquietação já estava formada. Chico Cirilo, um adolescente botador d’água, correu desesperado pelo mato adentro e rasgou a camisa quando passava numa cerca de arame farpado. Amália dizia: “Por caridade, vão chamar Dona Verônica”. Esta estava numa festa de casamento, a uma distância de aproximadamente três quilômetros. Era a casa de um fazendeiro por nome Jonas, que casara seu filho João Tiago, sobrinho do coronel. Felinto, o caçula da casa, conhecido por Nozinho, ainda garoto, também correu e depois do tumulto foi encontrado acocorado no tronco de uma bananeira.

João Lopes, encarregado do vapor, saiu numa carreira louca em direção a casa de seu Jonas para chamara Dona Verônica. Conforme conta outra empregada que morava perto, Alexandrina Maria de Jesus, mãe de Chico Cirilo, “o vento é quem o levava”. O coronel tinha uma filha, de nome Áurea, portadora de um distúrbio mental, que se agravara pelo elevado grau de epilepsia. Ela dava um ataque após o outro. Inconformada com a situação de seu pai, partiu para o vapor enquanto Amália a chamava: “Áurea! Venha para dentro de casa!”.

Sem dar atenção, ela ensaiava uma agressão aos algozes. O coronel sendo surrado com a virola e o facão de cortar capim que eles encontraram, dizia: “Não façam nada com ela, pois ela é doente”. Satisfeitos com o sadismo, largaram o coronel, que veio sozinho para casa, arquejando, apoiado na sua bengala. Voltou para a escrivaninha e sentou-se na tentativa de aliviar sua respiração bastante cansada. Um soldado ironicamente entrou na sala, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dele como se fosse bastante familiarizado.

As pessoas que estavam na casa iam se chegando e perguntando como ele estava. Ele respondeu: “Só não me mataram por um milagre de Deus”. Em seguida, mostrava o ombro ferido. Aí o soldado passou a negar dizendo que nada fizeram com o coronel. Foram uns paus que estavam escorados na parede e arriaram por acidente, ferindo o ombro dele. O negro Barra de Aço exibia-se no descampado da casa, montado em um cavalo selado.

Inacreditavelmente, mas depois que tudo se passou, o coronel mandou fazer café para eles. Amália, mesmo tremendo, conseguiu fazê-lo. Adonias, filho do primeiro matrimônio com dona Neomízia Rodrigues, convidou a tropa para tomar café. Eles recusaram. Talvez temendo envenenamento, pois aceitavam depois que o coronel tomasse.

Enfim, deixaram a fazenda sem conseguir o que queriam: armas. Ainda chegaram a desarrumar o quarto do casal, inclusive, espalhando as roupas de Dona Verônica. Todas as armas do coronel se resumiam a um facão de cortar capim, que eles levaram, e dois rifles. Estes estavam bem escondidos em uns caixões num armazém, de modo que não encontraram.

De volta do casamento, Dona Verônica encontra-se com Alexandrina e pergunta: “Você sabe o que aconteceu com Felinto?” Em seguida, as duas caminharam para casa. Os bandidos já não estavam mais. Ela ainda encontra seu esposo na escrivaninha. Ele diz: “Quase que matam”. Depois ela foi cuidar da saúde dele.

Logo a notícia chegou a Jardim do Seridó, a três léguas de distância, deixando a cidade em pânico. Um cidadão renomado, de nome João Medeiros Filho, jurista paraibano, passava em Jardim do Seridó na ocasião, em companhia de um capitão da Polícia Militar da Paraíba, Capitão Pereira Diniz. O referido senhor e o capitão foram à fazenda e trouxeram o Coronel para Jardim do Seridó a fim de receber tratamento médico.

No dia seguinte, 17 de janeiro de 1935, o telegrafista José Freire Coelho foi agredido por um elemento desconhecido porque se negou a telegrafar ao secretário de Segurança do Estado, Potyguar Fernandes, desmentindo os acontecimentos. Depois de levar duas pancadas na cabeça de um bastão de metal, não resistiu a dor, saiu gritando pelas ruas, deixando o Correio aberto. Um soldado do Exército brasileiro, que era casado com uma jardinense e se achava naquela cidade, ao perceber tomou a iniciativa de fechar o Correio. E depois comentou: “E ainda há quem acompanhe um bandido como Mário Câmara”.

Dias depois, seus filhos, que moravam em João Pessoa, vieram buscá-lo para um tratamento mais sério, pois chegou a vomitar sangue. Amália e Dona Verônica o acompanharam, enquanto Alexandrina respondia pelos afazeres domésticos. Ele passou alguns meses em João Pessoa. O coronel faleceu aos 92 anos de idade, no dia 11 de abril de 1944. 

 
 

HISTÓRIAS DO SERTÃO

Monsenhor Ausônio Tércio de Araújo: um homem de Deus

 

Por Adauto Guerra:

 

Ausônio Tércio de Araújo nasceu em Currais Novos, no dia 12 de outubro de 1935. Eram seus pais Ausônio Araújo e Maria Dalila Gomes. Seu pai era funcionário da prefeitura local, exercendo a função de agente fiscal. Foi batizado na matriz de Sant’Ana de Currais Novos, em 16 de novembro de 1935, pelo padre Benedito Basílio Alves e teve como padrinhos Elysio Galvão e Letícia Pereira Galvão.

 

O jovem Tércio fez seus estudos preliminares no grupo escolar Capitão Mor Galvão com uma professora de nome dona Auta. Em 1947, entrou no seminário Santo Cura d’Ars, em Caicó, tendo como reitor o holandês, da ordem dos lazaristas, padre Geraldo Jacob e, como bispo, Dom José de Medeiros Delgado. Naquela casa de formação sacerdotal fez o curso ginasial, concluído em 1950 e o colegial em 1952. No ano seguinte, 1953, foi para Roma onde freqüentou a Universidade Gregoriana, permanecendo ali até 1960. Na “cidade eterna” fez filosofia e teologia, incluindo o mestrado em ambos os cursos. Encontrava-se em Roma, no ano de 1956, quando recebeu a ingrata notícia da morte de seu pai, vítima de problemas cardíacos.

 

No dia 2 de fevereiro de 1960 recebeu o presbiterado. Porém, permaneceu em Roma até o final do ano a fim de implementar seus estudos. Ao retornar ao Brasil, naquele ano, a pedido de conterrâneos, adiou por uma semana seu retorno para Currais Novos, tempo suficiente para que fossem feitos, naquela cidade, os preparativos da festa de sua chegada. Diz que permaneceu esse tempo na capital paulista.

 

Em 1961 ele veio para Caicó e daqui nunca mais saiu. Naquele ano o reitor do seminário era o bispo Dom Manuel Tavares de Araújo, e ele assumiu a vice-reitoria substituindo o padre Itan Pereira, que assumira a direção do Ginásio Diocesano Seridoense (GDS), uma vez que o monsenhor Walfredo Gurgel deixara o GDS para ingressar na política. Também assumiu a capela de São José, hoje paróquia.

 

Em 1963, assumiu a reitoria do seminário onde também foi professor da cadeira de latim por longos anos. No Ginásio Diocesano, em 1964, Colégio Diocesano, além de eterno diretor, foi professor de religião, história, OSPB e francês. Em 1963, Dom Manuel Tavares fundou a Emissora de Educação Rural de Caicó e ele se eternizou na direção.

 

Em 1966, no final do ano, o seminário diocesano – onde ele morava, fechou e suas atividades se dividiram entre o Colégio Diocesano, a Emissora e a capela de São José, que naquele ano passou a paróquia, desmembrando-se da catedral de Sant’Ana. Suas atividades religiosas, então, aumentaram porque ficaram sob a jurisdição da paróquia de São José, as capelas de Nossa Senhora das Graças – no Abrigo, Santa Cruz e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na Barra Nova e São Pedro e São Paulo, no Walfredo Gurgel.

 

Em 1974, foi criado em Caicó o Campus Universitário e foram incontáveis as disciplinas ensinadas por ele ao longo desses 30 anos. Metodologia das Ciências, História da Filosofia e Teoria da História foram algumas delas. Mesmo aposentado, continuou ensinando na universidade.

                                   

Em 1998, foi fundado o Instituto Cardeal Eugênio Sales, instalado nas dependências do Colégio Diocesano e padre Tércio, que nesta época já havia sido promovido a categoria de monsenhor, assumiu algumas disciplinas nos cursos de Filosofia e Teologia. A tudo isso se inclui o cargo de membro do Conselho Estadual de Educação, função que exige dele sucessivas viagens à Natal.

 

Como vemos, pela folha de serviço prestada à comunidade, monsenhor Tércio merece todo nosso reconhecimento. Profundo conhecedor da história do Seridó, do Rio Grande do Norte, do Brasil e do mundo, sempre que há promoção de eventos culturais seu nome é lembrado para participar dos debates. Seu curso de História, intitulado de “Curso de Suficiência”, ele fez em Natal no ano de 1965. Seu currículo é invejável. Poucas pessoas atingiram nível igual. Na Diocese é um baluarte. Conhece toda a sua historia, a partir da fundação. Aliás, ainda como seminarista menor, como ele mesmo conta, já auxiliava Dom Delgado.

Ao monsenhor Tércio, toda a nossa gratidão.

 
 

HISTÓRIAS DO SERTÃO

A matriarca Mãe Quininha

 

 

 

Por Adauto Guerra:

 

Joaquina Clementina Dantas, a Mãe quininha, nasceu na fazenda Oiticicas, no município de Caicó, no dia 16 de agosto de 1883. Eram seus pais José Calasâncio Dantas, conhecido por coronel Bembém ou Bembém das Oiticicas, e Enedina Maria de Santana. Seu pai casou-se três vezes e Joaquina pertencia ao segundo casamento. Tinha 11 irmãos. Um deles, Joel Dantas, foi prefeito de Caicó. Outro, Justino Dantas, foi um dos colaboradores na fundação da cidade de São José do Seridó.

 

Joaquina pertencia a uma das mais tradicionais famílias do Seridó. Em linha direta era descendente do fundador de Carnaúba dos Dantas, o capitão de milícia Caetano Dantas Correia. Casou-se no dia 27 de janeiro de 1900 com o professor Pedro Gurgel do Amaral e Oliveira, natural da fazenda São Bento, onde hoje se ergue o município de Janduís. Ele veio para Caicó exercer o magistério, pois uma vez concluído o curso normal, encontrou o campo aberto em Caicó. Depois de casada, passou a se chamar Joaquina Dantas Gurgel. O casal fixou residência na rua Marquês de Herval, hoje praça Walfredo Gurgel. A residência pertenceu a sua avó, de nome Maria José, conhecida por Mãe Dondon. Nasceram Zózimo, Zenóbia, Clotário (faleceu aos 7 anos), Polísia e Walfredo.

 

No dia 31 de março de 1918, vítima de uma pneumonia, falecia o professor Pedro Gurgel. O jornal O Binóculo, pertencente ao tipógrafo Inácio Vale Sobrinho, registrou o triste acontecimento nestes termos: “Na manhã de domingo, dia 31 de março de 1918, Caicó acordou com a triste notícia da morte do professor Pedro Gurgel. Seu sepultamento foi seguido por uma grande multidão”. Ele contava apenas 38 anos. Dona Joaquina teve que dobrar as forças para criar os filhos. Como ela era polivalente, ganhou a vida realizando vários ofícios. Costureira, florista, doceira, parteira e artesã (fazia croché, bordado, chapéu, etc.). Seus estudos eram elementares, porém lia, escrevia e fazia as quatro operações. Foi por vários anos secretária do Apostolado da Oração, sociedade essa a qual teve a honra de ser uma das fundadoras.

 

O ofício de parteira ela herdou de sua avó, Mãe Dondon, e também de sua mãe Enedina. Por ter exercido esse ofício por aproximadamente meio século, recebeu carinhosamente o cognome de Mãe Quininha. O ofício de parteira praticamente nada lhe rendia. Como era portadora de alto teor caritativo, realizava essa tarefa por amor. E ia além da função de fazer o parto: cuidava da parturiente chegando até a lavar suas roupas. Após a morte de Pedro Gurgel, Mãe Quininha enfrentou dificuldades intermináveis. Muitas vezes, costurava até meia noite.

 

Em 1926, o caçula Walfredo foi estudar em Roma, no seminário Pio Latino-Americano. As despesas eram de dois contos de réis por mês. A Arquidiocese de Natal assumiu 50% e o restante ficou por conta de Mãe Quininha. Em 1932, ela viu o fruto do seu esforço. No mês de agosto padre Walfredo chegava a Caicó, filósofo, poliglota, teólogo, doutorado em direito canônico. A sociedade lhe ofereceu um banquete.

 

Durante longos anos Monsenhor Walfredo empolgou a comunidade religiosa de Caicó com seus brilhantes discursos em louvor à Sant’Ana. Um dia, a história mudou: em 3 de fevereiro de 1966, quando Walfredo Gurgel era governador. Era uma manhã de quinta-feira. Ele veio a Caicó com uma triste finalidade: realizar os funerais de sua santa mãe. Ela contava 83 anos de idade.

 

Passados tantos anos de sua morte, Mãe Quininha ainda permanece viva na memória dos caicoenses. Ela jamais pertencerá ao passado. Por todo bem que nos fez, a ela cabe a frase do célebre poeta Luiz Vaz de Camões, gênio máximo da literatura portuguesa: “Aqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando”.

Deus a recompense.

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