Diário de viagem

 
 

DIÁRIO DE VIAGEM

O tapete e a tábua de Pirulito

 

Nesta sexta-feira (5), viajei de Caicó a João Pessoa via Natal. E numa viagem dessas podemos comparar a diferença entre as rodovias. Nas imagens abaixo, o “tapete” de um trecho da BR-101, que está sendo duplicada, e a “tábua de pirulito” que está se transformando a RN-288.

 

Ainda que tenhamos de dar um desconto, pelo fato de a BR-101 ser uma rodovia federal e possuir um tráfego de veículos muito superior à RN-288 para ser bem construída, é pra lamentar o descaso da situação desta última.

 

 

 
 

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Nesta semana, viajo pela estrada que liga Caicó a Jucurutu. E no caminho me encontro com um bonito começo de chuva nas serras da região.  

 
 

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O verde luta contra o cinza no seridó

 

Passei recentemente pela BR-226, naquelas serras do município de Florânia, e pude constatar que o cinza da seca ainda toma conta da paisagem, que é muito bela em tempos de chuva. Contudo, um verdinho brotou das poucas águas que caíram por lá nos últimos dias.

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Quando o dinheiro vence uma eleição

 

Numa cidade do interior do Rio Grande do Norte prestamos serviço para o prefeito, que tentava a reeleição. No início da campanha, nossas pesquisas o apontavam liderando com uma diferença de 20% sobre o adversário. A avaliação da administração era muito boa.

 

Na entrega de uma terceira pesquisa o irmão do prefeito, um dos coordenadores da campanha, me pergunta: “Você acha que existe possibilidade do quadro mudar?” E respondi: “Só se descobrirem que seu irmão mata criancinhas para fazer magia negra”, brinquei.

 

Ele ficou calado um instante e falou sério: “O problema é que o nosso adversário tem muito dinheiro”. E retruquei: “Só se ele trouxer carretas de dinheiro. Mas aí só se a Justiça deixar correr solto”.

 

Não sei se o dinheiro veio em carretas, mas a realidade é que o adversário encostou na reta final, como apontavam nossas pesquisas. E com o poderio econômico nas mãos virou o jogo vencendo o prefeito nas urnas.

 

Foi a campanha mas cara da história daquele município.

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A popularidade de Lula entre o povo do campo

 

 

Na zona rural do município de Olho D’água do Borges, na região Oeste, encontro um senhor debulhando feijão no alpendre da residência. Seu Francisco, de 83 anos, me convida para sentar enquanto o pesquisador que me acompanha faz uma entrevista com a filha dele, numa casa vizinha.

 

Pergunto se a safra na região foi boa e ele responde que o inverno generoso deste ano ajudou muito. Mas ressalta que a agricultura de subsistência está ficando para trás. “Se a gente fosse depender do que planta pra viver, tava todo mundo morrendo de fome”, diz o senhor.

 

Mesmo prevendo a resposta, pergunto então de que sobrevive ele e os familiares que moram ao redor. “Se não fosse a aposentadoria (dele) e o dinheiro do governo a situação era muito difícil”.

 

É de programas sociais do Governo Federal que vem a maior parte do sustento da família do aposentado.

 

E pergunto o que ele acha do presidente Lula. “Meu filho, foi o primeiro presidente que olhou de verdade para os pobres. Só teve ele”, diz convicto. “Ele era pra ser presidente até morrer”, emendou.

 

Nas diversas comunidades rurais que tenho andado pelo interior do Rio Grande do Norte e da Paraíba, realizando pesquisas, a opinião das pessoas do campo sobre Lula é idêntica à de Seu Francisco.

 

Daí acredito que o círculo vicioso não acaba tão cedo. A perpetuação da miséria e o controle da opinião de quem sofre dela são certezas de sucesso eleitoral.

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Encontro com um ídolo de infância

 

 

A ciência da Estatística acha explicação para as coincidências. Encontro de situações, mesmo as mais inusitadas e difíceis de acontecer, estão sujeitas ao que chamamos de probabilidade. Porém, algumas coincidências que ocorrem em nossas vidas fogem da realidade, do factível, do senso comum. Entram no campo do inacreditável, do místico.

 

Cerca de duas semanas atrás, cedinho da manhã, tomava café na pastelaria Veneza, em Tangará. De lá, partiria com uma equipe do AGORASEi para fazer uma pesquisa no município de Caiçara do Rio dos Ventos, distante 90 Km de Natal.

 

Um senhor de cabelos loiros e aparentando mais de 50 anos entra na pastelaria. Alguém da equipe pergunta se ele não seria o famoso palhaço Facilita. Olho para o simpático homem e duvidei, apesar de achá-lo parecido com meu ídolo de infância. “Não, não é ele”, disse para os demais. Mas na mesa insistiram que sim, era o Facilita.

 

Não me contive e me dirigi ao senhor – cauteloso, pois ele poderia achar que estava de sacanagem – e perguntei se era o palhaço que alegrou tantas crianças por este Rio Grande do Norte afora. Muito simpático, respondeu que não. Era um bancário aposentado da capital em viagem.

 

Contei então para as pessoas que estavam comigo que o palhaço Facilita marcou minha infância. Quando o Circo Garcia armava em Caicó eu, meus primos e uns amigos não perdíamos uma matinê. Era nosso ídolo e a apresentação mais aguardada, evidentemente, era a dele. A brincadeira e/ou a piada mais ingênua era motivo de boas gargalhadas e passávamos a semana inteira relembrando.

 

Pegamos a estrada em direção a Caiçara do Rio dos Ventos. Na entrada da cidade, ainda na BR-304, avistamos uma lona de circo. Era o Circo do Palhaço Facilita! Todos no carro ficaram estupefatos. Eu também, mas contente e meio emocionado com as lembranças da infância aflorando na cabeça naquele momento.

 

Fui até ao local e um funcionário disse que Facilita estava no interior do circo. E lá estava ele, de bermuda e chinelão. Confesso que meu subconsciente esperava encontrá-lo vestido e maquiado como nos velhos tempos. Dirigi-me a ele com a mão estendida e disse: “Amigo, você não me conhece, mas lhe conheço e você não imagina o quanto foi importante na minha vida de criança”.

 

O velho palhaço abriu um sorriso e me deu um abraço. E aí contei o episódio na pastelaria Veneza. Ele também ficou boquiaberto com a coincidência. Conversamos por um bom tempo e fui convidado a assistir o espetáculo daquela noite. Com muita vontade de ficar e reviver um tempo feliz da minha vida, declinei desgostoso do convite por causa da responsabilidade profissional. Não podia ficar em Caiçara naquela noite.

 

Deixei a cidade no final da tarde. Ainda embalado pela nostalgia.

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Falta médico, professor, policial... menos o padre

 

                                 Capela de São José

 

                             Capela de Santa Teresinha

 

                     Altar da Capela de Santa Teresinha

 

Nas andadas pelo interior do Estado, notadamente na zona rural dos municípios, observo que a fé do povo e o apego ao catolicismo são mais fortes do que nos centros urbanos. Nos lugarejos perdidos no sertão, agreste ou litoral falta escola, posto de saúde e policiamento. Mas, quase sempre, um templo da Igreja Católica está edificado no meio de um povoado.

 

Na comunidade da Boa Vista, em São José do Mipibu, uma conservada capela de São José destoa da paisagem local. Foi construída em meio a casebres e na frente dela existe um canavial a perder de vista.

 

No município de Martins, no sopé da serra, existe um lugarejo denominado Pico dos Carros. Enquanto uma pesquisadora realizava entrevistas, fui fazer fotos da igrejinha do lugar. Um senhor se aproximou e se apresentou como o zelador do pequeno templo. Cheio de orgulho, disse que o interior da capela era bonito. E abriu-a.

 

Em algumas localidades também estão presentes algumas igrejas evangélicas. As sérias, claro. Porque aquelas que se notabilizam pelo apego ao “dízimo” não se interessam por lugares pouco habitados. Dão prejuízo.

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Ossos do ofício

 

 

Trabalho de entrevistador não é fácil. É algo parecido como a labuta do carteiro. Enfrenta sol, chuva, lama e várias outras dificuldades. Cães bravos também costumam atrapalhar o serviço e situações inusitadas acontecem.

 

Na zona rural de Assu não teve cachorro botando gente pra correr. Mas um bode cismou com uma entrevistadora do AGORASEi. Foi preciso a intervenção de um colega para abrir passagem de volta à moça.

 

Até agora, os cães das comunidades rurais têm sido amistosos conosco. Poucos ladraram e nenhuma mordida foi registrada.

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Contrastes de Tibau

 

 

 

Neste mês estive com uma equipe do AGORASEi trabalhando em Tibau, na região Oeste do Estado. Um desafio enorme pesquisar uma cidade com a imensa maioria das residências fechada. São casas de veraneio.

 

Em alguns bairros de praia foi necessário contratar mototaxistas locais para acompanhar os pesquisadores. Nesses lugares de praias extensas a população eleitora é mínima, daí o conhecimento dos motoqueiros para apontar as ruas com nativos eleitores.

 

Nesta época os veranistas estão ausentes. Nos finais de semana ainda aparece gente, mas em dia de semana Tibau ganha ares de cidade fantasma. Um seridoense típico, acostumado à urbanização compactada do Seridó, estranha.

 

Acompanhei uma entrevistadora a um assentamento de sem-terra às margens da rodovia de acesso ao município. A pobreza das dezenas de famílias do lugar me impressionou. E me deixou triste. Um contraste com a beleza litorânea.  

 

Uma senhora aparentando uns 60 anos de idade vendia melancias à beira da estrada. Puxo conversa enquanto aguardo o fim do trabalho da entrevistadora em algumas casas próximas. A mulher reclama de tudo e de todos. Diz que foram abandonados, inclusive, pelo próprio MST. Mas faz uma ressalva: “menos por Lula”. Lembrou dos programas sociais do Governo federal.

 

Fui embora e levei uma melancia. E também levei a impressão de que a perpetuação da pobreza continua como arma eleitoral. O Bolsa Família e congêneres não acabarão tão cedo.

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