DIÁRIO DE VIAGEM
Encontro com um ídolo de infância

A ciência da Estatística acha explicação para as coincidências. Encontro de situações, mesmo as mais inusitadas e difíceis de acontecer, estão sujeitas ao que chamamos de probabilidade. Porém, algumas coincidências que ocorrem em nossas vidas fogem da realidade, do factível, do senso comum. Entram no campo do inacreditável, do místico.
Cerca de duas semanas atrás, cedinho da manhã, tomava café na pastelaria Veneza, em Tangará. De lá, partiria com uma equipe do AGORASEi para fazer uma pesquisa no município de Caiçara do Rio dos Ventos, distante 90 Km de Natal.
Um senhor de cabelos loiros e aparentando mais de 50 anos entra na pastelaria. Alguém da equipe pergunta se ele não seria o famoso palhaço Facilita. Olho para o simpático homem e duvidei, apesar de achá-lo parecido com meu ídolo de infância. “Não, não é ele”, disse para os demais. Mas na mesa insistiram que sim, era o Facilita.
Não me contive e me dirigi ao senhor – cauteloso, pois ele poderia achar que estava de sacanagem – e perguntei se era o palhaço que alegrou tantas crianças por este Rio Grande do Norte afora. Muito simpático, respondeu que não. Era um bancário aposentado da capital em viagem.
Contei então para as pessoas que estavam comigo que o palhaço Facilita marcou minha infância. Quando o Circo Garcia armava em Caicó eu, meus primos e uns amigos não perdíamos uma matinê. Era nosso ídolo e a apresentação mais aguardada, evidentemente, era a dele. A brincadeira e/ou a piada mais ingênua era motivo de boas gargalhadas e passávamos a semana inteira relembrando.
Pegamos a estrada em direção a Caiçara do Rio dos Ventos. Na entrada da cidade, ainda na BR-304, avistamos uma lona de circo. Era o Circo do Palhaço Facilita! Todos no carro ficaram estupefatos. Eu também, mas contente e meio emocionado com as lembranças da infância aflorando na cabeça naquele momento.
Fui até ao local e um funcionário disse que Facilita estava no interior do circo. E lá estava ele, de bermuda e chinelão. Confesso que meu subconsciente esperava encontrá-lo vestido e maquiado como nos velhos tempos. Dirigi-me a ele com a mão estendida e disse: “Amigo, você não me conhece, mas lhe conheço e você não imagina o quanto foi importante na minha vida de criança”.
O velho palhaço abriu um sorriso e me deu um abraço. E aí contei o episódio na pastelaria Veneza. Ele também ficou boquiaberto com a coincidência. Conversamos por um bom tempo e fui convidado a assistir o espetáculo daquela noite. Com muita vontade de ficar e reviver um tempo feliz da minha vida, declinei desgostoso do convite por causa da responsabilidade profissional. Não podia ficar em Caiçara naquela noite.
Deixei a cidade no final da tarde. Ainda embalado pela nostalgia.